#CARNAVALDOPOVÃO2019

NOSSA

HISTÓRIA

Nossa história não começa no Egito, nos rituais ao Deus Baco, em Roma, nas ruas e salões franceses do Século XIX e muito menos no Entrudo e nas Grandes Sociedades. Para falar de fato daquilo que motivou o que hoje chamamos de blocos de enredo, no Rio de Janeiro, o marco é a década de 1920, quando as primeiras iniciativas de concursos de blocos foram promovidas.


O primeiro concurso é organizado pelo jornal A Manhã, em 1926, conhecido como o “Dia dos Blocos”, realizado posteriormente no ano seguinte. Nesta época, já refletindo o crescimento do carnaval na região suburbana da cidade, outros periódicos apoiaram concursos de blocos como O Jornal, o qual passou a promover a partir de 1929 o “Dia dos Blocos Suburbanos”, realizado na Rua Dias da Cruz, no Meier.


Tal mobilização ao longo destes anos incentivou a prefeitura a oficializar uma programação do carnaval para o ano de 1932 através da criação da Comissão Executiva dos Festejos. Na publicação O Livro de ouro do carnaval brasileiro, Felipe Ferreira comenta sobre esta ação da municipalidade. 


‘Foi organizado um “programa oficial” das atividades carnavalescas no qual faziam parte diversos eventos, tais como um “Banho de Mar à Fantasia” – brincadeira carnavalesca à beira-mar em que os participantes acabavam entrando na água, onde suas fantasias de papel se desfaziam - o “Dia dos Blocos”, um “Concurso de Marchas, Sambas e Músicas Carnavalescas” e um Corso de Automóveis” seguido de uma “Batalha de Flores e Confete em Copacabana”, esses dois últimos apoiados pelos Clubes Atlântico e Praia e pelo semanário Beira Mar, de Copacabana (O Jornal, de 20 de janeiro de 1932). Além disso, foi criado um grande baile carnavalesco oficial para a cidade, que iria ocupar a mais nobre sala de espetáculos do país, o Teatro Municipal do Rio de Janeiro, verdadeira jóia do estilo eclético inaugurada em 1909 dentro do projeto d reformas de Pereira Passos.’ (FERREIRA, 2004, p. 321-322)


O concurso de blocos de 1932 foi chancelado pela municipalidade e promovido pelo Centro de Chronistas Carnavalescos (CCC), contando com representantes da Comissão Executiva dos Festejos, e realizado no final de semana anterior ao carnaval, sendo o dia chamado de “sabbado magro”; ocorrendo na Avenida Rio Branco, principal pista de desfile na época. Neste período, iniciou-se a concessão do auxílio financeiro às agremiações, conhecido no mundo do carnaval como subvenção.


Motivados pelo apoio estatal, parte destas agremiações organizaram para o carnaval de 1933 a Associação dos Blocos Carnavalescos, delegando ao CCC a organização do certame. Porém, devido a divergências internas, o CCC desistiu de organizar o concurso Com isso, a Associação dos Blocos Carnavalescos não mais conseguiu se inserir no campo do carnaval carioca. Posteriormente, os blocos tentaram retomar a constituição de uma entidade representativa, porém sem sucesso.


O número de concursos para esta manifestação carnavalesca diminui consideravelmente nas décadas de 1940 e 1950, destacando-se mais uma vez a atuação do CCC para a realização de certames de blocos, voltados para a modalidade banho de mar à fantasia.


A redução de concursos de blocos na região central da cidade, deslocando-se principalmente para as praias, somada ao crescimento dos concursos de coretos nas regiões suburbanas da cidade tiveram por consequência o espraiamento das manifestações carnavalescas pelo território carioca. Muitos jornalistas e pesquisadores levantaram a bandeira do fim dos grandes blocos e de seus concursos. Mas, os blocos nunca acabaram... Apenas não mais apareciam com tanta intensidade no imaginário popular do carnaval. Mas, veio a década de 1960 junto com o crescimento dos concursos de blocos.


Mais uma vez organizados por jornais ou pela Associação de Cronistas Carnavalescos (ACC), chancelados ou não pelo poder público. Em geral, estes concursos eram promovidos no final de semana anterior ao carnaval. A leitura das matérias dos jornais destes anos permite concluir que eles foram importantes na organização de certo número de blocos a buscarem constituir uma entidade representativa.


O concurso de 1960 organizado pela ACC mereceu elogios por parte do Diretor de Turismo e de Certames da Prefeitura do Distrito Federal:


‘Finalizando agradeceu à ACC pela lembrança que teve em homenagear os blocos carnavalescos e aos sambistas, declarando que se achava comovido diante da solicitude com que os recreativistas o têm tratado, maneira essa que não pode ser comparada com nenhuma fase da sua vida diplomática e relembrou que a sua meta é da justiça, trabalhando, principalmente, para terminar com a exploração indevida do nosso folclórico, fazendo vê-lo a fôrça que tem.’ (DIÁRIO DE NOTÍCIAS, 27 fev. 1960, p. 5)


Na matéria publicada pelo Diário de Notícias em 01 de março de 1962, na página 1 da Segunda Sessão do periódico, sobre o resultado do desfile dos blocos, promovido pela empresa Midas Propaganda em conjunto com os periódicos Diário de Notícias e Mundo Ilustrado e realizado na Avenida Atlântica, próxima à sede da TV-Rio, as agremiações elogiam a iniciativa, solicitam nova edição no ano seguinte e divulgam a intenção de criarem uma entidade representativa. 


Cabe destacar que os quesitos se assemelham àqueles observados nos concursos das décadas de 1920 e 1930, mais uma vez mostrando que estas agremiações desfilavam com características musicais e visuais que remetem aos atuais blocos de enredo.


‘O júri estava constituído por Zélia Hoffman (fantasias), Edson Carneiro (Porta-Bandeira e Mestre Sala), Sérgio Cabral (letras), Osvaldo Sargentelli (bateria), Sérgio Porto (músicas) e Edna Savaget (originalidade).’ (DIÁRIO DE NOTÍCIAS, 01 mar. 1962, p. 1, segunda sessão).
 

Entretanto, mesmo chancelando concursos de blocos, a partir de 1962, o poder público optou também por organizar certames, integrando-os ao calendário do carnaval carioca. Porém, em 1964, diante da impossibilidade de reunir todos os inscritos aptos a participar em um único local de desfile, no mesmo dia – no caso, na segunda-feira de carnaval, na Praça XI – a Secretaria de Turismo optou em dividir os habilitados, inserindo as agremiações que se inscreveram por último para desfilar na Avenida Presidente Vargas, na segunda-feira de carnaval, após o desfile dos ranchos. O desfile na Avenida Presidente Vargas foi chamado de “concurso extra” e os blocos participantes denominados “independentes”.


O desfile de 1964 foi um importante marco na oficialização dos concursos de blocos carnavalescos. Além da necessidade de dividir os blocos inscritos em dois grupos, a Secretaria de Turismo pela primeira vez disponibilizou subvenção financeira aos blocos, reconhecendo a importância dos desfiles deste tipo de manifestação carnavalesca, que já reivindicavam tal ajuda.


A criação de uma entidade que congregasse os blocos carnavalescos era questão de tempo... Em matéria publicada pelo Diário de Notícias (1965), há informe sobre o registro da entidade gestora – hoje nomeada como Federação dos Blocos Carnavalescos do Estado do Rio de Janeiro (FBCERJ) – e o início de seus trabalhos.


‘Com o fim de congregar todos os Blocos numa entidade estadual e orientá-los como guardiões do folclore brasileiro e fontes da música popular, foi fundada nesta cidade a Federação dos Blocos Carnavalescos do E. da Guanabara, registrada no Cartório Civil das Pessoas Jurídicas sob no 14.406. A nova entidade tem sede na Av. Gomes Freire no 387, sala 1 e as reuniões se realizam às terças-feiras, na Rua do Riachuelo, 44 – 3º, sede da Confederação Brasileira das Escolas de Samba. A diretoria provisória está assim constituída: Vitalino Francisco Cardoso, Válter Ribeiro da Silva e Aureo Nazareno Vieira, respectivamente, presidente, secretário e tesoureiro.’ (DIÁRIO DE NOTÍCIAS, 1965, p. 7)


Por fim, após muitas reivindicações, prevaleceu a organização do poder público, que reconheceu a recém-fundada FBCERJ para, no carnaval de 1967, oficializar em caráter permanente o desfile e a subvenção aos blocos carnavalescos, estabelecendo como data de desfile o sábado de carnaval.


Observando a listagem dos blocos carnavalescos participantes dos concursos promovidos pela Secretaria de Turismo em 1964 e 1965, muitos destes constam da relação de fundadores ou de associados da FBCERJ desde seus primeiros anos, como: Quem Fala de Nós, Não Sabe o que Diz; Cometas do Bispo; do Barriga; Canários das Laranjeiras; Come e Dorme; Bafo do Bode; Arranco; Não Tem Mosquito; Foliões de Botafogo, dentre outros.


Depois, a FBCERJ se estabeleceu como uma das referências do carnaval carioca. Por esta casa, muitas agremiações surgiram, cresceram e estão até hoje engrandecendo a folia carioca. A história não para e este nova versão de nosso site possui um espaço para contá-la com mais detalhes. É o Centro de Memória que continua em preparação. Afinal, não é tarefa fácil dar conta de mais de meio século de atividades ininterruptas...


Hoje, muito se fala da retomada do carnaval de rua do Rio de Janeiro pelos blocos de rua, movimento este dos anos 2000 para cá. Coisa de quem não conhece o carnaval carioca e suas diversas manifestações...


Desde 1965, os blocos de enredo sempre estiveram presentes na folia carioca e organizados na Federação dos Blocos Carnavalescos do Estado do Rio de Janeiro, a entidade carnavalesca mais antiga em atividade na Cidade Maravilhosa.

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